O sujeito é todo feito de sonhos

O sujeito é todo feito de sonhos. Sonhos gigantescos e inalcançáveis. Ser astronauta, jogador do Barcelona. Ser aquele policial que derruba a porta, prende os criminosos, salva as crianças sequestradas e depois tira foto para o jornal. O sujeito sonha que vai ser grande na vida, vai ter sucesso e dinheiro. Vai ter uma casa no campo, o carro do ano, família grande e uma piscina no quintal. Então o sujeito acorda. Sem vontade alguma, levanta da cama, desliga o despertador e vai pro banheiro. Toma banho, se olha no espelho e percebe que precisa fazer a barba. Toma um café e corre para o trabalho. A casa está vazia e no rosto nenhum sorriso apareceu. Trabalha onde seus erros são jogados na sua cara e seus acertos somem num mar de problemas. Volta pra casa, assiste tv, come qualquer coisa que tenha na geladeira e vai dormir. Dormir e sonhar que é alguém grande. Alguém de sucesso. Um ator de cinema, talvez. Mas o despertador toca, ah, meu bem, ele sempre toca e então o sujeito levanta. Os dias passam e o sujeito percebe que seus sonhos são idiotas. Ele começa a sonhar com um bom emprego e um ponto de ônibus perto de casa. Sonha em jogar tudo pro ar e mudar de ramo, fazer outra faculdade. Mas o dia vem e o sujeito sem vontade levanta e se olha no espelho. “Um dia”, ele pensa, “um dia isso vai mudar”. Os dias passam, os sonhos mudam, mas lá está o sujeito, sem eira nem beira, sem vontade nem vigor, achando que vive.

Sobre (viver)

Um avião cruzou o céu e, tampando o sol, caiu na casa dele. Olhando pela janela a sombra em sua direção, o desespero deu lugar à calmaria e ele abraçou a morte. O avião despedaçou sua morada, mas mesmo assim ele sobreviveu.
Várias espaçonaves vindas de uma galáxia muito, muito distante sobrevoaram seu país e um exército alienígena tomou conta da selva de pedra. Criaturas verdes disparando armas a laser causaram grande temor e destruição, mas ele sobreviveu.
Mortos-vivos levantaram de suas tumbas. Corpos de carne putrefata vagavam pelas ruas trazendo caos e destruição. Agarravam e mordiam tudo o que era vivo, mas ele escapou e sobreviveu.
O circo chegou à cidade e os palhaços psicopatas atacaram o público. Risadas maquiavélicas ecoaram pelo picadeiro enquanto pessoas eram mutiladas. Sangue e gritos preenchiam o ambiente fechado, enquanto os palhaços psicopatas corriam com facas na mão, mas ele sobreviveu.
Um gigantesco meteoro cobriu o sol e atingiu o planeta. Os vulcões entraram em erupção, os mares castigaram a costa com tsunamis, os dinossauros voltaram a caminhar pela Terra, o céu escureceu ao meio-dia e uma chuva de pedra caiu ao entardecer. Mesmo assim ele sobreviveu.
Em uma tarde calma e fria, uma breve brisa de primavera passou e ele se apaixonou. Então ele morreu.

Fantasmas no porão


Há fantasmas no meu porão.
Quando os dias se arrastam e a noite chega, eles arranham as paredes. Com a cabeça entre a cama e o travesseiro, eu fecho forte os olhos, torço para que vão embora e, quando o sol já está quase aparecendo, eu consigo dormir. O despertador toca e eles acordam juntos, gritando e rindo, feito loucos num hospício.
Há fantasmas no meu porão e eles passam boa parte do dia me atormentando. Me dei conta que eles não sabem o que fazem. São acúmulos de memórias, momentos, felizes ou tristes, restos de sentimentos, sonhos abortados. Talvez isso não signifique muito, já que há muitas vidas errantes por aí sem saber do mal que fazem. Eu arrasto os pés até a cozinha e ligo a cafeteira. Toda manhã. Eles socam a porta, urram ofensas e riem de escárnio antes mesmo do meu primeiro gole. 
Quase nunca recebo visitas, pois tenho medo do que eles podem fazer. São poucos os que revelo sobre os fantasmas em meu porão. As vezes alguma alma simpatiza com a minha e vem visitar meu refúgio. Levo-a até a porta do porão e bato. Ela percebe o que há lá, mas não sabe explicar o que é. Vejo medo em seus olhos. Todas as vezes. Em todas as almas. Mas puxo meu colar e mostro a chave da porta, sempre junto de mim, colada em meu peito. Está tudo sob controle, eu digo. Ela vê as rachaduras na porta, os parafusos caídos, mas confia em mim.
Há fantasmas no meu porão, na escuridão fria e opaca, solitária, mas não sozinha. Há fantasmas no meu porão e lá eu os deixo dia e noite, noite e dia. Há fantasmas no meu porão e por mais que eu os odeie, eu não sei viver sem eles.
Eu sou os fantasmas em meu porão. 

Casa no campo

Desde criança eu sonho em ter uma casa no campo. Nem sei porque, sempre preferi asfalto e concreto, mas sempre que sonhava com minha vida adulta, lá aparecia uma casa no campo. É uma casa modesta, mas tem uma árvore muito grande na frente, com um balanço. Eu chego e abraço meus dois filhos. Olho para cima da árvore e prometo a eles terminar a casa da árvore no fim de semana. Sempre quis uma casa na árvore. É engraçado, pais sempre querem dar aos filhos o que sempre desejaram, mas nunca tiveram. Vou até o jardim e colho uma rosa. Entro em casa com um sorriso e dou um beijo em minha mulher. Entrego a rosa e tento dizer algo romântico. “Essa rosa eu mesmo plantei, reguei, cuidei e colhi. Dediquei a ela meu amor e a você entrego esse amor hoje e o resto dos meus dias”. Sei lá, algo assim. Meio piegas, eu sei, mas eu sou meio assim. De tempos em tempos as coisas mudam um pouco. Em vez de casa na árvore eu prometo dar banho nos cachorros. Ora são 10 filhos, ora só um. O que mais muda é a esposa. Ela ganha forma e rosto. O rosto está sempre mudando. O último rosto que encaixou ali riu da minha casa do campo e se mandou. Hoje a forma não tem rosto. Eu ainda imagino essa casa no campo as vezes, mas cada dia que passa as formas vão se perdendo. Hoje eu chego e não tem crianças correndo para o abraço. Não tem árvore com balanço. No jardim apenas erva daninha e algumas pétalas caídas ao chão. Eu entro na casa do campo e não tem ninguém. As coisas mudam e não é mais uma casa e sim um apartamento pálido de condomínio. Frio e solitário. Na sala tem um jarro com flores de plástico. Flores de plástico não morrem. Mas também não vivem. Eu atravesso os pequenos cômodos e me jogo na cama. Fecho os olhos e tento sonhar. Sonhar com a casa no campo.

A vida é um espelho torto na parede

Todos os dias eu acordo às 8 da manhã e todos os dias eu demoro a me levantar. Com muita sonolência eu me arrasto para o chuveiro e me arrumo para ir ao trabalho. Todos dias, na saída de casa, passo por um espelho. Dou aquela última e rápida olhada para ver se está tudo certo, se meu cabelo está bem penteado, se não tem nada nos meus dentes. E então, vou-me embora.
Ou, pelo menos, era isso o que eu fazia. Agora eu perdi o emprego e tem dias que eu acordo às 11 e tem dias que eu acordo às 6 da manhã. Tomo meu café e não ligo se meu cabelo está penteado ou se minha camisa está bem passada. Não me olho mais no espelho. Não com frequência, pelo menos. Fora da rotina, às margens do sistema, conseguimos prestar melhor atenção nos detalhes. Passei pelo espelho da saída e me olhei. Olhei bem e percebi algo. O espelho estava torto. Durante os últimos meses eu passava pelo espelho torto e nunca notei. Nunca parei para prestar atenção. Agora, então, com cuidado eu ajeito o espelho e me olho nele. Vou-me embora.
Noutro dia de procrastinação eu passo pelo espelho e percebo que está torto novamente. Ajeito e vou-me embora, mas depois passo em frente dele e noto que está torto novamente. Percebo que não importa o que eu faça, o espelho sempre penderá para o lado. Não adianta simplesmente colocar ele no lugar e esperar que ele fique assim por si só. Eu me olho no espelho e vejo que tudo ao meu redor está torto. Olho bem para o espelho e não sei mais dizer se o espelho é que está torto ou se sou eu. Devo eu me endireitar ou endireitar o espelho? Ou os dois? Mas eu não tenho mais motivo para ver se meu cabelo está limpo e apresentável, se minha camisa está amarrotada, então não importa mais. Deixo o espelho do jeito que está e vou-me embora. A minha vida não é mais aquela velha rotina. A minha vida agora é um espelho torto na parede.

Nono andar


A brisa gélida percorria seu corpo semi nu. Os longos cabelos encaracolados acompanhavam o movimento do vento. As lágrimas não; elas percorriam seu rosto triste até caírem, mas não chegavam a tocar o chão, se dissipavam lá no oitavo ou sétimo andar. Os poucos carros que passavam aquela hora da madrugada não viam a garota na janela do nono andar, mas ela os via e ficava pensando no estrago que causaria se acertasse um deles. Tentaram lhe dizer que a vida muda constantemente. Que tudo passa. Que ela ficaria bem, mas a garota já estava cansada. Cansada de esperar pelo amanhã, cansada de recolher seus cacos, cansada de sorrir ao dar bom dia na segunda-feira de manhã. Da janela do nono andar, a garota mirava as estrelas. Pensava que em algum lugar ali, entre a lua e o cruzeiro do sul, ela acharia o lugar para qual pertencia. Lembrou de todos os momentos que viveu e uma única dúvida pairou em seus pensamentos. Ela não sabia se tinha valido a pena. Seus olhos viam a rua deserta enquanto imaginava seu corpo estirado bem ali. Imaginava os bombeiros removendo seu corpo da rua, a multidão que passaria de manhã por ali, vivendo suas vidas, olhando e apontando para ela. "Tão nova", eles diriam. "Uma vida inteira pela frente". Imaginava o choro da família. Imaginava a montanha sendo removida de suas costas e o alívio que sentiria. Mesmo com as lágrimas escorrendo por sua face, elas os fechou. Fechou os olhos, respirou fundo e do nono andar a garota de cabelos encaracolados se jogou. Se jogou e dali voou. De abraços abertos ela abraçou o mundo. Voou em direção aos céus. Percorreu galáxias de olhos fechados. Finalmente um sorriso sincero brotou em seu rosto. Seu corpo ficou estirado no asfalto, em frente a janela do nono andar e seus olhos, ainda abertos, miravam as estrelas. 

Texto dedicado a B. J. A. que fez da minha vida um conto e foi viver nas estrelas.

Surpreenda-se

Algo que eu faço (e muito) é ler. Livros, HQs, mangás, bula de remédio, tem letrinha eu tô lendo. Tenho os meus autores favoritos, minha lista de livros que quero ler e mesmo assim passo horas preciosas dos meus dias procurando algo novo. Um livro de um autor renomado há muito esquecido, um lançamento com grande hype, uma obra desconhecida, mas muito elogiada pela crítica, seja lá o que for, procuro sempre conhecer coisas novas para futuras leituras.

Isso me fez perceber que eu já não me surpreendia tanto com as leituras. (Isso se encaixa também com filmes e séries, por exemplo, mas não vou falar disso aqui porque ainda quero chegar em algum lugar, então calma aí que já tô chegando). De frente para onde trabalho há uma livraria e um pouco mais adiante uma banca. Um dia, simplesmente do nada, pensei: "Vou entrar ali e comprar alguma coisa. Qualquer coisa. Tive um dia duro de trabalho, eu mereço!". Então entrei na banca e comprei um mangá. Volume 1 de um encadernado do qual nunca tinha ouvido falar antes. A capa era maneira, a sinopse misteriosa e dava pra ver que a edição tinha sido caprichada pela editora. Paguei meio ressabiado, mas muito curioso para saber o que tinha em mãos.
Foto para ilustrar que eu leio muito, muito mesmo.

Abri e devorei o mangá. Não tinha noção sobre o que era a história, qual o tema, qual o gênero, nadinha. Li e amei. De verdade. Talvez o mangá nem seja tão bom assim, mas a novidade daquilo tudo me agradou. Foi então que percebi que era isso o que faltava. A surpresa, o desconhecido. De vez em quando precisamos ser desbravadores. Entrar na caravela e explorar os oceanos. Você pode acabar parando em um mundo totalmente novo e isso revolucionará sua vida. Ou apenas o seu dia. O que já é uma grande conquista atualmente.

Hoje, prometi para mim mesmo que faria isso ao menos uma vez por mês. Vou entrar naquela banca ou livraria, olhar ao redor e escolher um item desconhecido. Qualquer coisa que me chame a atenção.

Fica o desafio. Você que está lendo isso, qual foi a última vez que foi surpreendido? Que deixou o caos reinar e o acaso decidir? Planeje as coisas importantes da sua vida, mas permita-se uma surpresa às vezes. O acaso te leva a lugares impressionantes.

PS: O tal mangá era o Ajin - Demi Human, lançado pela Panini. Não vou dar informações sobre, talvez  ele lhe surpreenda também.

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Esse texto foi escrito com a seguinte trilha sonora (e a base de um bom café):
  1. Móveis Coloniais de Acajú - O Tempo
  2. Korn - Hater
  3. Slash's Snakepit - Beggars & Hangers On
  4. Medulla - Bom Te Ver
  5. Huntingtons - Bonzo Goes To Bitburg (Ramones cover)