Nono andar

20:35:00


A brisa gélida percorria seu corpo semi nu. Os longos cabelos encaracolados acompanhavam o movimento do vento. As lágrimas não; elas percorriam seu rosto triste até caírem, mas não chegavam a tocar o chão, se dissipavam lá no oitavo ou sétimo andar. Os poucos carros que passavam aquela hora da madrugada não viam a garota na janela do nono andar, mas ela os via e ficava pensando no estrago que causaria se acertasse um deles. Tentaram lhe dizer que a vida muda constantemente. Que tudo passa. Que ela ficaria bem, mas a garota já estava cansada. Cansada de esperar pelo amanhã, cansada de recolher seus cacos, cansada de sorrir ao dar bom dia na segunda-feira de manhã. Da janela do nono andar, a garota mirava as estrelas. Pensava que em algum lugar ali, entre a lua e o cruzeiro do sul, ela acharia o lugar para qual pertencia. Lembrou de todos os momentos que viveu e uma única dúvida pairou em seus pensamentos. Ela não sabia se tinha valido a pena. Seus olhos viam a rua deserta enquanto imaginava seu corpo estirado bem ali. Imaginava os bombeiros removendo seu corpo da rua, a multidão que passaria de manhã por ali, vivendo suas vidas, olhando e apontando para ela. "Tão nova", eles diriam. "Uma vida inteira pela frente". Imaginava o choro da família. Imaginava a montanha sendo removida de suas costas e o alívio que sentiria. Mesmo com as lágrimas escorrendo por sua face, elas os fechou. Fechou os olhos, respirou fundo e do nono andar a garota de cabelos encaracolados se jogou. Se jogou e dali voou. De abraços abertos ela abraçou o mundo. Voou em direção aos céus. Percorreu galáxias de olhos fechados. Finalmente um sorriso sincero brotou em seu rosto. Seu corpo ficou estirado no asfalto, em frente a janela do nono andar e seus olhos, ainda abertos, miravam as estrelas. 

Texto dedicado a B. J. A. que fez da minha vida um conto e foi viver nas estrelas.

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