Fantasmas no porão

20:00:00


Há fantasmas no meu porão.
Quando os dias se arrastam e a noite chega, eles arranham as paredes. Com a cabeça entre a cama e o travesseiro, eu fecho forte os olhos, torço para que vão embora e, quando o sol já está quase aparecendo, eu consigo dormir. O despertador toca e eles acordam juntos, gritando e rindo, feito loucos num hospício.
Há fantasmas no meu porão e eles passam boa parte do dia me atormentando. Me dei conta que eles não sabem o que fazem. São acúmulos de memórias, momentos, felizes ou tristes, restos de sentimentos, sonhos abortados. Talvez isso não signifique muito, já que há muitas vidas errantes por aí sem saber do mal que fazem. Eu arrasto os pés até a cozinha e ligo a cafeteira. Toda manhã. Eles socam a porta, urram ofensas e riem de escárnio antes mesmo do meu primeiro gole. 
Quase nunca recebo visitas, pois tenho medo do que eles podem fazer. São poucos os que revelo sobre os fantasmas em meu porão. As vezes alguma alma simpatiza com a minha e vem visitar meu refúgio. Levo-a até a porta do porão e bato. Ela percebe o que há lá, mas não sabe explicar o que é. Vejo medo em seus olhos. Todas as vezes. Em todas as almas. Mas puxo meu colar e mostro a chave da porta, sempre junto de mim, colada em meu peito. Está tudo sob controle, eu digo. Ela vê as rachaduras na porta, os parafusos caídos, mas confia em mim.
Há fantasmas no meu porão, na escuridão fria e opaca, solitária, mas não sozinha. Há fantasmas no meu porão e lá eu os deixo dia e noite, noite e dia. Há fantasmas no meu porão e por mais que eu os odeie, eu não sei viver sem eles.
Eu sou os fantasmas em meu porão. 

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1 comentários

  1. O que eu poderia dizer? É, sem dúvida alguma, uma das melhores obras que eu já li em toda a minha vida, nem tenho palavras para expressar...

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