Coisas para escrever #1

19:33:00



263. Um personagem vegetariano.


      Era uma sexta-feira bem chuvosa. Olivia olhava fixamente para o seu prato, brincando com a azeitona. Enquanto via aquela vastidão de verde, seus pensamentos viajavam e lhe remetiam imagens de um belo bife ao ponto. O homem ao seu lado também comia apenas uma leve salada. Olivia sabia muito bem que seu padrasto não conseguia viver assim e mais tarde, quando a garota já estivesse adormecida, ele assaria e devoraria um bom pedaço de carne, mesmo assim ela era grata pelo esforço. Com muito afinco, Olivia colocou um brócolis na boca e pôs-se a mastigá-lo. Devido à sua condição, Olivia não poderia mais se alimentar de carne, era agora vegetariana. Uma longa história que marcou Olivia para sempre; ficaram três longas cicatrizes que iam de seu pescoço ao abdômen, e uma quarta em sua alma. Após um sofrível jantar, foram ambos deitar, cada qual em seu quarto. Mais um dia se passara.
      Era um sábado ensolarado. Olivia brincava com uma folha de alface. Mais um almoço sem carne alguma. Seu padrasto sabia das consequências de alimentar a enteada com carne e faria tudo ao seu alcance para que isso não ocorresse. É bem verdade que as vezes ele comia uma bisteca escondido, mas sempre tomara cuidado para que Olivia não descobrisse seu esconderijo. E tratava de comer logo. Ele olhava com ternura para a jovem e sorria para incentiva-la. Sabia que não era fácil para ela. Olivia via o sorriso do padrasto e sorria de volta. Um sorriso sem graça que deixava claro que a garota estava a ponto de assaltar um açougue. Terminou de mastigar seu espinafre e se retirou. Ainda subindo as escadas, Olivia ouviu um gemido agudo e algo quebrando. A garota voltou correndo e viu seu padrasto xingando duas gerações da família do prato que jazia quebrado no chão, enquanto sua mão sangrava. "Me cortei com a faca e deixei o prato cair", disse ele, mas Olivia não prestou atenção. Tudo que ela via era o sangue. Aquele rio vermelho que escorria pelo braço gorduroso até pingar no tapete. Sua boca salivava. "Olivia!" gritara o padrasto. A garota acordou de seu transe, deu qualquer desculpa e correu para seu quarto. Trancou-se ali. Sentia-se culpada e faminta. Não desceu para jantar.
      Era um domingo nublado. Olivia sentia seu corpo ficar mais quente, seu coração bater mais rápido a cada vez que via a mão enfaixada do homem ao seu lado. Sentia o cheiro de um banquete vindo dali. Respirou fundo e colocou um aspargo na boca. Suava frio. O sorriso familiar que vinha de seu padrasto, sempre acompanhado de incentivo hoje vinha com um ar de preocupação. Ele sabia o que estava acontecendo. Sabia também que era a primeira noite realmente perigosa que enfrentariam. Apertou forte o crucifixo em seu peito. Respirou fundo e tentar dar um outro sorriso a Olivia, agora cheio de ternura. Levantou-se, deixou a afilhada almoçando sozinha e foi recolher tudo o que existia feito de prata na casa.
      Era um domingo a noite. Fora nublado de dia, mas agora era uma noite límpida e estrelada. Regendo essa beleza, lá estava ela, imensa e completamente cheia; a lua. Iluminando a janela do quarto de Olivia, que suava frio e sentia fortes dores no corpo. "O que está acontecendo comigo?". Implorava por respostas ao seu padrasto que pouco dizia. Apenas rezava segurando um imenso crucifixo. Importante salientar que era feito de prata. O homem tinha fé que a privação de carne daria uma freada no que estava por vir. Olivia não aguentando mais aquela reza, começara a berrar e a gritar. Estranhamente, para o homem ao seu lado, aquilo parecia mais um uivo. Os olhos da garota encontraram a lua cheia pela janela. Olivia sentiu uma vibração e então a lua falou com ela. "Desperte, minha doce garota. Desperte e uive para mim". E foi o que Olivia fez. Cada osso de seu corpo estalou e ela se contorcia e se debruçava. O padrasto da pobre menina começou a rezar mais alto e mais forte enquanto sacudia o crucifixo com mais força. Os olhos de Olivia agora de um azul intenso amedrontava o homem ao seu lado. Os músculos da garota se estiravam e contraíam, assumindo uma nova forma. Pelos negros feito trevas nasciam pelo torço da garota e se espalhavam. O que um dia foi uma boca pequena com dentes retos e bonitos agora era uma bocarra que babava e uivava com dentes afiados e prontos para o ataque. A transformação ocorrera com sucesso e a doce garota chamada Olivia agora era um raivoso lobo. 
      Era um domingo de madrugada com uma bela lua cheia, que invadia a janela daqueles que tentavam dormir depois de um dia em família, ou dos amantes que se entrelaçavam em êxtase e paixão. Ou, então, que invadia a janela do lobo que outrora fora Olivia. O homem que já não estava mais ao seu lado era acuado a um canto enquanto a lentos passos o lobo se aproximava. De supetão, um pulo e um gemido de dor; a fera atacara e levara um crucifixo de prata no focinho. Ardeu por alguns segundos, mas a fera já estava em pé e faminta. Gania, grunhia e rosnava para o homem que um dia fora o padrasto de Olivia. O lobo estava com fome. Dessa vez com mais força e fúria, a fera investiu contra o apavorado homem e saciou sua fome. Carne era rasgada em meio a súplicas e gritos, por dentes e garras. Longe da cidade ainda era possível ouvir gritos e uivos, mas que logo cessaram. O lobo largara a carcaça ensanguentada no lugar onde fora o quarto de Olivia e pulou pela janela. Aquela seria um longa noite e a fera ainda estava com fome. Olivia deixara de ser vegetariana. 

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