Maldição

22:23:00


"Aquele que luta com demônios deve acautelar-se para não tornar-se um também. Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você."

Prólogo
      Fantasmas habitavam em mim. Mandei-os embora. Deitado na banheira gélida, totalmente submerso eu os sentia indo embora. Toda a minha vida parecia um longínquo passado enquanto eu abraçava a escuridão. Os pulsos abertos deixava a água vermelha, mesmo assim o sentimento era límpido e agradável. Uma última bolha de ar saiu de minha boca e a água terminou de invadir meus pulmões.
      Um barulho abafado de sirene e uma luz opaca piscando invadia a janela do quarto 303, mas eu não reparava nisso dentro da banheira. Mãos nervosas e gritantes me agarravam, algo pressionava meu peito, uma voz ao longe balbuciava coisas estranhas e eu tentava me debater, fazer com que parassem, me deixassem ali. Meu caminho era abraçar aquela escuridão, mas as vozes vestidas de branco me traziam de volta.
      Agora tubos invadiam meus pulmões e removiam a água que outrora me levava para a paz. Na minha semiconsciência eu os via. Eles tinham asas. Asas brancas. Eles falavam enquanto olhavam pra mim. Suas palavras eram de conforto. Queria lhes dizer que estava tudo bem, que eu não precisava ser salvo, mas eles me salvariam mesmo assim.
      Ainda na ambulância, em meio aos anjos eu vi uma figura encapuzada. Negra como a noite. Não tinha rosto, apenas um largo sorriso, medonho feito o pecado. Ela apenas olhava a situação. A ambulância estacionou, os anjos me levaram de maca para dentro do hospital. Abriram-me e fecharam-me. Eu perdi a noção do tempo naquela cama com todos aqueles bipes e remédios que me davam. Meus pulsos ardiam e as cicatrizes lá estariam para sempre, lembrando-me de minha covardia. Minha maldição. Em estado semiacordado, eu sonhava com o vazio.
I.
      Eu estava cansado. Depois de um dia duro de trabalho, só um bom banho e uma boa noite de sono me aliviariam. Cheguei em casa preparado para a minha rotina noturna de sempre, mas algo estava diferente. Sempre tento deitar e dormir o máximo possível. Não naquele dia.
      Tinha acordado às 8 em ponto, como todos os outros dias e como todos os outros dias tinha tomado banho, escovado os dentes e ido para o trabalho na minha moto. Fiz o meu melhor naquela droga de lugar e voltei para casa. Mais um dia como todos os outros dias. Pelo menos era o que eu achava.
      Desci da minha moto para abrir o portão e ao pegar a chave, notei uma coisa. Uma caixa. Pequena, de papelão. Uma caixa em frente ao portão. Sem remente ou explicações, a caixa tinha apenas o aviso “Cuidado, frágil”. Olhei ao redor e não vi ninguém. Ainda de capacete, cocei meu pulso cicatrizado, peguei a caixa e tentei deduzir o que tinha dentro, chacoalhando. Era leve e não fazia barulho. Não tinha meu nome nela, mas sentia que a encomenda era para mim. Isso me assustava.
      Entrei em casa, deixei o pacote na mesa e sentei. Olhei para a caixa e sentia que ela me olhava de volta. Abri, com medo e ansiedade. Não era bem o que eu esperava. Esperava que mil fantasmas sairiam dali e reivindicariam minha alma, mas tudo o que tinha ali era um livro. Decepcionado, mas ainda curioso, peguei o objeto e uma corrente elétrica percorreu meu corpo. Eu sentia vida ali. Nada estava escrito na capa. Abri e mais decepção eu tive. As páginas amareladas e gastas estavam em branco. Convencido que fui vítima de algum tipo de um trote sem sentido, larguei o livro na mesa e fui tomar banho.
      Embaixo do chuveiro fiquei pensando que tipo de pessoa deixaria essa encomenda bizarra na porta da minha casa. Entre devaneios ouvi uma voz me chamando. Uma voz feminina entoar meu nome entre sussurros. Desliguei o chuveiro e passei a tentar ouvir a voz, mas ela se calou. Saí do banheiro e ao secar meu cabelo, olhei de relance para a mesa. Lá estava o livro. Aberto. Eu o tinha deixado aberto? Não lembrava. Cocei meus pulsos. Achei estranho e fechei-o. Pensei em guardá-lo na caixa novamente, mas uma estranha ideia passou pela minha cabeça. O tomo era velho e as folhas pareciam pergaminhos. Era muito bonito. Pensei em fazer daquilo meu diário. Sentir-me-ia o próprio Bukowski escrevendo meus delírios naquelas páginas. A decepção inicial se foi e uma certa empolgação tomou conta de mim. Vesti-me.
      Corri para a garagem e busquei entre meus pertences a muito esquecidos e guardados uma velha caneta tinteiro, herdada de meu avô. Iria ser perfeito. Deixei a bagunça de lado e com pressa fui de encontro ao estranho objeto. Sentei na cadeira e abri na primeira página. Molhei a tinta e mergulhei a caneta. Então percebi que não sabia exatamente o que escrever. Fiquei ali, pensando. Deveria tentar uma história? Sobre guerreiros e dragões? Um romance policial, talvez? Não. Achei melhor manter a ideia de um diário e tentar uma autobiografia. Não sabia muito bem como começar, então resolvi me apresentar. “Olá. Chamo-me Dante e você está prestes a conhecer minha história”. Escrevi e contemplei as palavras naquela página, me achando o próximo escritor de sucesso a despontar. Com um sorriso no rosto, mergulhei a caneta na tinta novamente quando notei um certo brilho no livro. O meu escrito se dissolveu e no lugar apareceu uma nova frase. “Prazer em conhecê-lo, Dante, mas saiba que você está enganado. É você quem conhecerá minha história”.
II.
      Simplesmente congelei nesse momento. A boca aberta, as mãos na mesa, o coração no peito, tudo parado. Não sabia o que pensar ou o que fazer. Alguns poucos minutos que pareceram eras se passarem e eu retomei o controle. Fechei o livro com pressa, guardei na caixa e empurrei para o outro lado da mesa. Não conseguia piscar. A sensação de que ao menor desvio de olhar, o demônio em pessoa apareceria ali e levaria minha alma da forma mais torturante possível. Tentei pensar em explicações racionais para o ocorrido, e só uma me veio à cabeça: Eu havia enlouquecido. Só podia ser uma alucinação. Como eu disse no começo, eu estava cansado, e o cansaço pode mexer com a cabeça das pessoas. Ou talvez eu estivesse apenas me enganando.
      Finalmente fechei os olhos com força e respirei fundo. Um desespero me acometeu e eu sentia um ser passando suas mãos negras e pegajosas em meu pescoço, mas quando abri os olhos, vi que era apenas minha imaginação. A caixa com o livro continuava bem ali, do outro lado da mesa. Fechei novamente os olhos, com mais convicção agora. A minha respiração foi se acalmando. Depois de longos minutos abri os olhos e vi que nada tinha mudado. Eu queria rasgar o livro, página por página, depois queimá-lo, passar com um trator por cima de suas cinzas e depois jogá-lo em um rio de um outro continente. Ao mesmo tempo, queria abrir o livro e entender o que se passava ali. Sou agnóstico desde minha adolescência, mas nunca duvidei da maldade que cercava a humanidade. Só não acreditaria que fosse algo assim, tão palpável. Em contrapartida, sempre duvidei da bondade. Não é como se eu não acreditasse em sua existência, só não achava que fosse algo importante, nem que as pessoas realmente se preocupavam em ser boas sem segundas intenções. E se Deus todo-poderoso realmente existisse, tenho completa certeza de que Ele não assumiria a forma de um livro velho se tivesse algo a dizer à humanidade. Ou a mim.
      Concordei comigo mesmo e aceitei que eu estava sendo infantil. Aquilo era apenas a droga de um livro e seja lá o que aconteceu, devia ter uma explicação racional. Estiquei-me sobre a mesa e peguei a caixa. Retirei o livro e abri, procurando palavras, mas só havia branco. Ou melhor, amarelado. Procurei por algo tecnológico, um nanochip ligado a uma tela flexível. A droga de um resistor que fosse, mas não havia nada. Pensei em escrever algo novamente. Peguei a caneta e refleti nas próximas palavras. “Finalmente perdi minha sanidade ou há vida neste objeto?”. Esperei pacientemente e quando as palavras sumiram, um terror novamente me acometeu, mas dessa vez eu estava preparado. “Essas cicatrizes que você carrega mostram que enlouqueceste há tempos.”. Olhei para meus pulsos, mas sentia que ele falava de outro tipo de cicatriz. Percebi que não havia muito mal que um livro pudesse fazer comigo e o medo foi substituído por uma curiosidade de mesma proporção. “Quem é você e o que você quer comigo?”. Escrevi e aguardei. “Quem sou eu é uma questão que você deve descobrir e o que eu quero é exatamente isso. Decifra-me ou eu te devoro”. Merda.
III.
      Estava aceitando melhor aquela situação. Talvez uma parte de mim até estivesse gostando. Ganhei confiança e resolvi arriscar. “Você é só um livro. Que mal poderia me fazer?”. Eu dei uma risada de triunfo, mas um frio subiu pela minha espinha com a resposta. “Foi você quem perguntou.” Era como se um tornado tivesse entrado em minha casa. As páginas do livro viravam e viravam e um vento não sei de onde me empurrava e me puxava. Senti meu corpo se desfazendo e sendo tragado por aquelas malditas folhas e então era apenas escuridão. Foi como se eu acordasse após 12 anos em coma. A primeira coisa que vi foram árvores. E então neve. Estranho, nunca tinha visto neve. E então veio o frio. Meus olhos se abriam com enorme dificuldade. Minha cabeça rodava. Uma vez, na faculdade, tomei duas garrafas inteiras de um uísque barato. Quando acordei no dia seguinte, sentia o mesmo que agora. Esse pensamento me alegrou, mas esse sentimento foi-se embora ao perceber que um gigantesco tigre me encarava. A injeção de adrenalina foi repentina e toda aquela ressaca foi embora. Apurei os sentidos e me vi com roupas estranhas e um rifle na mão, daqueles antigos, que precisam colocar pólvora. Mosquete. Eu sabia como aquela arma se chamava e também sabia como funcionava, eu apenas não sabia como eu sabia disso tudo. Só havia árvores e neve por toda parte. Não conseguia me concentrar nos detalhes com aquela bocarra me encarando. Também nunca vi um tigre de perto, mas aquele ali me parecia grande demais para um felino daquele tipo. Seu único olho me fitava. Com minhas roupas, arma e munição, fazia todo sentido eu ser um caçador, mas comicamente me sentia a caça.
      Então ele veio. Tudo ao me redor parou e em câmera lenta eu o via. Em minha direção. As patas o impulsionavam, os músculos contraiam e estiravam, marcas enormes eram deixadas na neve e qualquer animal que habitava ali sentia na terra que o seu rei estava atacando. Sem saber nem como, eu mirei o mosquete e esperei. Ele se aproximava e eu tremia, mas esperei. O gigantesco tigre caolho chegou muito próximo e eu atirei. Eu via sua cabeça balançar. Era como se um mosquito o tivesse picado, mas foi minha bala que o acertou de raspão, então ele continuou seu trajeto com vontade e fúria. Eu fechei os olhos e abracei a morte, mas ela não veio. Sua pata gigantesca cortou meu peito. A ferida ardia, mas o movimento parou no meio e tudo sumiu. As árvores, a floresta, o frio, o medo, o tigre, tudo. Eu estava sentado na minha cadeira olhando para o livro e podia jurar que nada daquilo tinha acontecido, não fosse o sangue que escorria do meu peito.
      Meio zonzo, corri para o banheiro. Tentei limpar a ferida com água e roupas que tinham por ali. Meu ouvido zumbia, a ferocidade do tigre rugia na minha mente e então minha última refeição subiu garganta acima e desceu pia abaixo. Fiz um curativo improvisado e deitei no chão. Não sei bem se chorava, mas tenho certeza que tremia. O livro me chamava. Sentia no meu âmago a porra do livro me chamando. Tive que levantar e ir até ele. Cocei os pulsos, olhei para suas páginas de pergaminho e podia visualizar um sorriso de deboche naquela coisa. Sentei-me segurando o peito e respirei fundo, mesmo sentindo dor. “O que foi isso?”, arrisquei e risquei ali. “Para mim, uma lembrança, uma memória já há muito morta e enterrada, mas que se torna imortal quando registrada em um livro. Para você, uma amostra do que um simples livro é capaz.”
IV.
      Fechei o livro. Com cuidado. Minha cabeça doía e eu sentia que ia desmaiar. Puxei o ar com força inúmeras vezes, então levantei. Fui ao banheiro, liguei o chuveiro e deixar a água envolver meu corpo na esperança de tudo aquilo ser limpo e escorrer pelo ralo. Sequei-me com a toalha que um dia foi branca, mas que então ficou vermelha. Fiz um curativo de qualquer jeito e deitei na cama. Fechei os olhos por alguns segundos e dormi. Dormi um sono que não dormia há anos. Pesado, sem me preocupar em perder a hora no dia seguinte.
      Durante a noite tive um sonho. Eu corria por entre estantes numa biblioteca enquanto um imenso tigre me caçava. Era possível ouvir risadas vindas dos tomos ali presentes. Eram risadas de escárnio e regojizo. As poucas pessoas que ali estavam pareciam não notar o ocorrido, imersas em suas leituras. O tigre me alcançou e eu acordei.
      Meu corpo todo pesava e eu sentia que tinha dormido durante anos. Pelo sol que batia na janela deduzi que já era hora do almoço. No celular, várias chamadas perdidas do trabalho, todas ignoradas. Sentei na cama, imensamente cansado. Queria ao menos ter tido alguns minutos de real ignorância em que acreditava que tudo o que aconteceu fora apenas um sonho louco, mas o curativo manchado de vermelho em meu peito deixava bem claro que fora real. Eu sentia o livro lá na mesa, em outro cômodo, me chamando.
      Achei que enchia-me de coragem, mas ao levantar eu era só medo. Queria fugir. Simplesmente pular a janela e ir embora. Para um lugar bem longe. Sentia com toda minha alma que onde quer que eu fosse, lá estaria o livro, então levantei-me e fui de encontro ao medonho objeto. Cheguei à mesa e lá estava ele. Aberto.
V.
      “Eu deveria temê-lo?”. Na verdade eu já o temia. “Com todas as suas forças.”. Respirei fundo. “Você é um tipo de jogo?”. Já não sabia mais o que escrever, queria apenas que aquilo acabasse. Logo. “Pareço um jogo?”. “Não, não parece. O que você quer de mim? O que você quer que eu faça?”. “Quero causar-lhe dor e sofrimento. Quero lembrar-lhe de seus pecados. Quero quebrar-te, esmigalhar-te, obliterar sua existência e então reconstruir-te para que eu possa fazer tudo novamente. Quero que veja o antes, o agora e o depois e sinta tudo isso. Quero lembrar-te de quem és. Já sabes quem sou?”. Um puta de um sádico, maníaco e psicopata, pensei. “Ainda não sei. O que acontece se eu descobrir quem é você?”. Nós estávamos conversando. Eu poderia facilmente servir-lhe um chá com biscoitos e escutar suas histórias. Eu poderia facilmente lhe servir um segundo chá, enquanto ele levanta e me apunhala doze vezes no peito. “Você dormiria. Sonharia com Deus e o mundo. Acordaria. Acordaria de uma forma da qual nunca acordou antes.” Agora você está parecendo um maldito jogo, pensei. Um jogo de cartas marcadas, de dados viciados, de roleta adulterada. Um jogo que eu nunca ganho. “E se eu não descobrir?” Eu mal reconheci minha letra, graças a tremedeira. Tirei forças não sei de onde e coloquei o ponto de interrogação. Não queria saber a resposta. Não queria. “Eu simplesmente não mais impedirei o tigre.”
VI.
      "E como faço para descobrir quem é você?” Essa conversa injetou adrenalina em minhas veias e eu era só concentração. Nada mais existia, apenas aquele demônio em forma de livro. Agora, o foco ia se dispersando e meu peito voltava a latejar. Minhas palavras foram sugadas pelas páginas e fiquei atento esperando uma resposta. Esperei. Esperei. Ela não veio. Coloquei a caneta tinteiro de lado, recostei na cadeira e esperei mais um pouco. Nada. Achei que aquela era a minha deixa para ir ao bar mais próximo a procura de esquecimento em forma de garrafa. Fiz menção de levantar e as páginas amareladas começaram a virar e a virar e a virar. Não havia vento que fizesse isso. Eu já  tinha presenciado essa cena antes. Não, oh, não, não pode ser. Não. Um brilho fosco saiu do livro e invadiu meu cérebro, meu corpo, minha alma. Era apenas escuridão.
      Então acordei. Levantei e abri os olhos. A segunda vez pareceu mais fácil. Olhei em volta. Tudo o que via era grama, flores e túmulos. Olhei para baixo e vi que usava trajes a rigor, escuras. Lá atrás estava acontecendo um funeral. E ali eu me vi. Ainda bem pequeno, com um terno preto que cabiam dois de mim. Uma flor em uma mão e minha mãe na outra.
      O meu eu de agora, amaldiçoado por um livro foi de encontro ao meu antigo eu. Olhei-o nos olhos e ele não me viu. Vi toda a minha família ali em volta. Vi rostos desconhecidos também. Vi o caixão. Lembro-me bem da sensação. O primeiro cadáver que vi, aos seis anos, era de meu pai, mas não ali. Ali o caixão estava fechado. Meu finado pai havia estourado os miolos. Olhei bem fixo para o caixão. Algo ali me chamava. De supetão, a tampa voou longe e meu pai levantou.
      O cadáver com um rombo na cabeça me olhava com olhos frios. Um verme caiu de seu nariz. Ninguém parecia notar que o velho estava de pé novamente, continuavam a velá-lo. Ele olhou firme para mim com o olho que ainda estava na órbita. Apontou-me o dedo. Riu de escárnio, com uma risada aguda e sobrenatural. Suas palavras ecoaram em minha mente. “Estou te esperando, querido filho”.
      Minha cabeça rodopiou, o funeral se dissipou e fui jogado de encontro a cadeira. Minha cabeça latejava, meu estômago estava embrulhado e meus pulsos coçavam. Respirei fundo. Dessa vez foi fácil. Afinal, era uma memória minha e não do livro. Adulterada, com toda certeza, mas minha.
VII.
      “Eu estava lá. Você viu?” As palavras emergiram na página aberta do livro. Você deve estar de brincadeira comigo. Claro que não te vi, porra. “Haviam muitas pessoas. Só reparei no cadáver pútrido de meu pai dizendo amavelmente que sente saudades minhas.” Eu tenho essa mania de fazer piada com algo sério. As pessoas odeiam. Talvez eu estivesse realmente assustado, só agora estaria me acostumando com essa bizarrice. O humor voltou. Viva! Eu juro que uma risada sincera ressoou em minha mente. Um riso genuíno. E não era minha. “Temos parentesco, querido livro?”. Ousei. Eu sabia que ele poderia me matar. Apagar minha existência deixando apenas um dedo para trás. A polícia acharia que eu fui sequestrado. Procurariam por aí, espalhariam cartazes. Enquanto isso, em um saco plástico empoeirado numa estante de evidências estaria tudo o que foi achado na cena do crime: um dedo e um livro. Não tinha medo de morrer. Nunca tive. Tenho medo da vida. É horrível ter a vontade de se viver, mas não saber como. Por isso, tenho medo da vida e de toda a dor que vem com ela. “Resposta errada, Dante. Uma lástima. Receba seu ponto negativo.” Isso não me soou muito bom.
      Um brilho ofuscante e aterrador cegou-me os sentidos. Uma dor profunda e anormal desceu-me goela abaixo. Escuridão total. Meu corpo se desfez e refez infinitas vezes. Minha mente eram várias e uma só ao mesmo tempo. Senti todas as dores do mundo e a paz total. Caí no chão de areia. Vomitei uma refeição que não era a minha. Um zumbido agudo ribombava pelos meus ouvidos e meu peito buscava ar com todas as forças. Eu ofegava. Comecei a me acostumar com o novo ambiente. Eu estava ajoelhado, com uma mão no chão e outra no peito. Percebi que algo muito resistente cobria meu corpo. Aos poucos, notei que alguém gritava. Não, muitas pessoas gritavam. Ergui minha cabeça. Eu estava numa arena. Gigantesca. Completamente lotada. Ao meu redor, guerreiros digladiavam. Uns corriam com machados, outros cruzavam a arena numa biga decepando cabeças. A plateia urrava. Respirei fundo. Olhei o peitoral em forma de leão em meu peito. A espada caída aos meus pés. Eu era um gladiador.
      Peguei a espada. Senti o peso dela. Não sabia como, mas eu sabia manuseá-la. Habilmente. Sabia o que tinha que fazer. Era uma representação da luta de Cartago. Os homens com lanças e charretes eram os romanos, vencedores da batalha. O resto, os derrotados. Estavam ali para morrer e satisfazer a plateia. Eu estava ali para morrer. Respirei fundo e lembrei dos meus tempos servindo o exército romano. Eu servi o exercito romano? Gritei uma ordem aos meus homens. Se reuniram no canto com os escudos formando uma parede. As carruagens perderam a vantagem. Eu sabia como lutar. Eu sabia como combater o inimigo. Formei a estratégia e fomos a luta. Foi sangrento. Estávamos em menor número. Pouco a pouco fomos morrendo. A cada cabeça que voava, a cada grito agonizante que ecoava, as pessoas pulavam e aplaudiam. Eu estava exausto quando um homem olhou pra mim. Ele usava um elmo que cobria todo o rosto, expondo apenas os olhos. Eu conhecia aquele olhar assassino. Ele pegou sua lança e veio. Nós lutamos. A espada sempre leva desvantagem contra a lança. Fiz bons movimentos, lhe presenteei com alguns belos cortes. E então sua lança rasgou-me. Num movimento abrupto e certeiro, varou-me entre as costelas. Cuspi sangue. A dor era intensa. Então percebi o silêncio. Tudo estava congelado, exatamente como aconteceu com o tigre. Tudo começou a dissipar-se e um redemoinho me engoliu.
      Sangrei no carpete da minha cozinha. Olhos invisíveis rodeavam-me. Eu sentia isso. Apertei forte a ferida entre as costelas. Fiz um curativo às pressas. O segundo em tão pouco tempo. Se continuasse assim, eu precisaria criar um convênio com uma farmácia. Sim, moça, um novo rolo de esparadrapo. Um pouco de aspirina também, minha cabeça está me matando. Deve ser porque um samurai tentou arrancá-la fora quando fui parar em uma outra dimensão, mas não se preocupe, estou começando a achar que o capeta está gostando de mim. Iremos ao bar tomar umas, pode nos acompanhar se quiser. Obrigado pelos remédios e desculpe manchar todo o chão da farmácia de sangue, eu sou mesmo muito desastrado.
      Olhei-me no espelho. Sem roupa, via mais machucados que qualquer outra coisa. Apesar do corpo flagelado, uma chama ardia em meus olhos. Eu podia ver ali. Minha alma estava mais viva do que nunca. Eu ia comprar aquela briga de vez. Eu ia bater de volta. Ia reunir todas as forças que uma pessoa é capaz de reunir e arrebentar com aquele livro. Logicamente depois de uma boa noite de sono.
VIII.
      Uma vez eu li um livro sobre fantasmas. Ele começa dizendo que algumas pessoas não sabem que morreram, então seus espíritos sem corpos vagavam pela terra. Aquilo me fez pensar. Quantas pessoas não sabem que não vivem, então vagam pelo mundo num corpo sem espírito? Apenas fazem o que tem que fazer. Acordam, trabalham, estudam, planejam um futuro melhor que nunca vai chegar, gastam o sofrido dinheiro que ganham com equipamentos inúteis ou roupas de marca que aparecem na televisão. Vão a bares e festas, bebem, beijam, trepam e dormem, para então acordar e voltar a ser mais uma engrenagem no sistema. As pessoas perderam suas almas há muito tempo. São apenas corpos condicionados a fazer a mesma coisa, dia após dia.
      Eu tinha um relógio quebrado. O ponteiro dos segundos circulava o relógio, pois era isso que ele tinha que fazer. O ponteiro dos minutos, não. Ele não funcionava mais. Entretanto, o ponteiro dos segundos continuava a rodar, sem um motivo. Ele apenas fazia o que tinha que fazer. A sociedade é um relógio quebrado.
      Água invadia meus pulmões e eu já não tinha certeza se era o que eu queria. Não tinha forças para levantar, era tarde demais. Na banheira fria e vermelha meu corpo travava uma guerra com minha mente. Meus pulsos abertos jorravam vida afora. Talvez eu estivesse chorando. Toda a minha vida passava pelos meus olhos. Talvez eu estivesse fazendo a coisa certa. Uma chama diminuta em meu peito dizia que não. As sirenes invadiam a janela, homens de branco corriam pelo quarto 303 e braços e asas me tiravam da banheira. O despertador tocou e eu acordei, suado e ofegante.
IX.
      Fiquei ali, deitado, de olhos abertos. O livro convocava-me. Creio que tinha acostumado com a voz que zumbia em minha cabeça. Continuei deitado. Cocei as cicatrizes do pulso. Excepcionalmente agora, ardia como o inferno. Lembrava-me de meu suicídio como se estivesse ainda vivendo-o. Apertei forte as marcas do passado e levantei. Costumava arrastar-me ao sair da cama. Principalmente com a maldição que estava bem ali, no cômodo ao lado. Dessa vez não. Levantei-me com certeza. Passei reto pelo livro. Sentia olhos sobrenaturais me fitando. Fiz um café. Escuro e amargo como as madrugadas de um suicida. Apreciei cada gole. Nunca tinha tomado algo tão bom assim. Algo resmungava de impaciência. “Abra-me”. Fui até a mesa e peguei o livro. “Você anda muito esquentadinho para o meu gosto.” Eu disse em voz alta. Então abri o congelador e o coloquei lá dentro, junto aos potes de sorvete e a carne congelada. Troquei-me de roupa e saí.
      Eu achava que era quarta-feira. Talvez já fosse quinta. A brisa da manhã era aconchegante. Não sabia ao certo o que estava fazendo. Talvez eu estivesse fugindo. Fugindo para onde? Não, Dante, você não estava fugindo. Estava tentando assumir o controle. Era isso. Fazer as coisas do meu jeito.
Passei em frente a uma livraria e resolvi entrar. Tinha livros de todos os tipos nas pálidas estantes. Bom, talvez não de todos os tipos, pensei com uma certa lamúria. No balcão, algo me chamou a atenção. Agendas e diários. Um rascunho de ideia atravessou minha mente e resolvi levar um dicionário. Ao lado, um punhado de marcadores de páginas. Peguei um rosa com fitas coloridas e um pequeno cristal que ficava solto como um pêndulo. Um meio sorriso apareceu em meu rosto ao imaginar a cara do livro ao ver o meu presente. O sorriso foi-se ao lembrar que o livro não tinha cara.
X.
      Abri a porta de casa. Silêncio. O mais completo e sereno silêncio. Nenhum resmungo. Ninguém me chamando. Entrei. Respirei fundo e atravessei a sala. Lá na mesa, o livro. Aberto. A casa estava gélida, mas o congelador estava fechado. “Não gostou de sua nova casa?”, pensei. Não houve resposta. Bebi bons goles d’água e sentei à mesa, com o embrulho em mãos. Fechei o tomo amaldiçoado e o empurrei para longe. Nada aconteceu. Abri meu novo diário, em capa de couro falsificado e páginas pautadas. Peguei minha caneta-tinteiro e rabisquei na primeira página. “Olá. Chamo-me Dante e você está prestes a conhecer minha história”. Então fixei meu olhar no texto e esperei. Esperei. Esperei. Nada aconteceu. As palavras continuavam ali. Ótimo. Um livro que é um livro. Respirei fundo e continuei. “Eu cometi suicídio. Anjos de jaleco branco me salvaram. Fui ao inferno e voltei. Lúcifer gostou de minha pessoa, então enviou-me um presente. Um livro. Um livro maldito. Graças a ele, aqui estou, mas não é disso que quero falar. Quero falar sobre a morte. Ou melhor, sobre a vida que te leva a morte. A vida é uma criança com uma lupa queimando formigas num domingo de sol. E adivinha? Nós somos as formigas. As formigas correm sem direção, apenas tentam fugir da morte. Algumas não sabem como fugir, então desistem. E morrem. Então a criança desiste da brincadeira e volta para casa. Mas não se preocupe, ela voltará ao formigueiro. Eu sou um cara legal. Ou, pelo menos, tento ser. Tentava. Hoje eu não me importo mais. Desisti de ser formiga. Hoje sou vespa. Nunca brinque com vespas.”
      Divaguei um bom tempo sobre vida e morte. Contei às páginas brancas pautadas o drama de se ter 9 anos de idade e se chamar Dante. Ao fim, fitei as palavras escritas no diário. Por um segundo, as palavras pareciam sumir, mas era ilusão. Lá estavam elas. Fixas. Para sempre. Fechei o diário e coloquei a caneta ao lado. Sem olhos em mim ou vozes grotescas. Paz, finalmente. Isso não me agradava. De forma alguma. Estranhamente, não me sentia no comando. Sabia que era o livro quem estava ditando a regra. Ele impunha o ritmo e eu dançava. Eu era sua marionete. Seu macaquinho. Eu dei o primeiro passo para fora do circo, mas o livro sabia que eu o faria. Ele deixou. É como um jogo de xadrez. Passei meu cavalo por cima dos peões e o ostentei às peças inimigas. Agora espero a jogada do adversário. Maldito seja esse livro.
XI.
      Minhas cicatrizes ardiam. As do pulso. Levantei-me e fui ao banheiro. Lavei as mãos na água fria que caía da torneira. Queria lavar as cicatrizes. Lavar de corpo e alma. Fechei a torneira e respirei fundo. Abri a porta do banheiro com violência e comecei a falar alto. “Hoje foi um dia maravilhoso. Amo livrarias e hoje pude ir em uma. Montes de livros fantásticos espalhados lá. Livros de verdade. Com coisas escritas neles. Aproveitei e comprei um presente para o meu mais novo amigão!”. Peguei o marcador rosa com fitas da sacola. Olhei bem aquela coisa extravagante e chamativa. Abri o livro maldito, coloquei o marcador e fechei. Fiquei olhando aquele tomo de aspecto velho, classudo e imponente com um marcador rosa choque e fitinhas coloridas. Subitamente tive um ataque histérico de riso. Comecei a gargalhar de forma estridente. Perdia o ar e ficava vermelho. Batia na mesa. Olhava o livro e ria. A voz outrora muda pareceu acordar. E para meu espanto ela ria comigo. Não havia graça. Era um riso grave, sem emoção. E eu gargalhava mais e mais. Situações extremas fazem isso com as pessoas. Destroem elas por dentro.
      Uma dor lancinante percorreu minha espinha, fechei os olhos em agonia e tudo era breu, sem luz ou som. Abri os olhos e estava sentado, de frente para a mesa. O livro infernal estava aberto e não havia sinal do marcador. O diário simples que adotei era apenas um trapo queimado, rasgado e empoeirado. Olhei para as páginas de pergaminho que conversaram comigo. “Última chance, Dante. Chega de brincadeiras. Quem sou? Descubra-me ou te devoro”. As letras emitiam fúria e convicção, sabia que meu tempo havia acabado. Meus pulsos doíam exatamente igual a quando os abri pela primeira vez. A imagem da banheira veio a minha mente. A dor, o desespero, a fuga. E nesse momento eu percebi que já não me sentia como me senti naquele momento. Não queria mais fugir. Revi todos os momentos que o livro me mostrara; as horríveis mortes daqueles que queriam sobreviver. Vi meu pai e eu sabia que as palavras daquele cadáver saíram de verdade da boca dele. Hoje não, papai. Um lampejo sobrepôs a dor e eu tive uma ideia. Dessa vez eu não escrevi. Disse em voz alta com toda as forças que eu consegui reunir. “Você, livro maldito, é o ceifador de almas, a criatura de foice e sobretudo. É o fim derradeiro, o mal irremediável, a união dos justos e corruptos. O grande ponto final. A dor dos vivos e o consolo dos enfermos. O assassinato, o suicídio, a tragédia, o acidente. VOCÊ É A MORTE”. Respirei fundo e olhei o tomo. Segundos se transformaram em anos. Será que eu tinha errado? O livro fechou-se sozinho, e ali ficou. A história acabara, eu tinha acertado. Um forte clarão bateu em meus olhos. Mãos puxavam meu corpo que para minha surpresa estava molhado. Minhas cicatrizes estavam abertas.
XII.
      Um barulho abafado de sirene e uma luz opaca piscando invadia janela do quarto 303, mas eu não reparava nisso dentro da banheira. Mãos nervosas e gritantes me agarravam, algo pressionava meu peito, uma voz ao longe balbuciava coisas estranhas, mas dessa vez eu não me debatia. Eu pedia de forma silenciosa por socorro.
      Agora tubos invadiam meus pulmões e removiam a água que outrora me levava para a escuridão, que eu pensava ser a tão sonhada paz. Na minha semiconsciência eu os via. Eles tinham asas. Asas brancas. Eles falavam enquanto olhavam pra mim. Queria lhes dizer muito obrigado, mas não conseguia. Queria pedir desculpas, mas também não conseguia. Eu queria viver.
      Ainda na ambulância, em meio aos anjos eu vi uma figura encapuzada. Negra como a noite. Não tinha rosto, apenas um largo sorriso, medonho feito o pecado. Ela acenou para mim. “Você venceu dessa vez. Aproveite bem a nova vida, logo nos encontraremos novamente”. A ambulância estacionou, os anjos me levaram de maca para dentro do hospital. Abriram-me e fecharam-me. Eu perdi a noção do tempo naquela cama com todos aqueles bipes e remédios que me davam. Meus pulsos ardiam e as cicatrizes lá estariam sempre, pra lembrar-me de meu momento de covardia, mas também de minha força. Minha maldição e meu milagre. Eu havia jogado com a morte e havia vencido. 

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