Devaneios Cotidianos #3

14:55:00



     Então eu começo a correr. Acelero. Fiquei pra trás, mas mesmo assim eu corro. Meus pés doem, a chuva atrapalha a visão, mas mesmo assim eu corro. Não posso parar. A vida é movimento. Uma curva. Não vou conseguir. Vou sim. Não, não vou. Desacelero. Olho pro lado. Escorrego. Caio de cara na lama. Limpo o rosto na manga e recomeço a correr. Minhas pernas estão dormentes e meus pulmões pedem pausa, mas eu corro. Eu corro porque é tudo o que sei fazer. Não que eu queira ir a algum lugar, talvez até queira deixar algo pra trás, mas não é por isso que corro. Corro porque a vida é movimento. Cada passo dado é uma mudança. Estou ali. Não estou mais. Estou na frente. Eu corro. Outra curva. Parece a mesma. Será? Desacelero. Não vou cair, não dessa vez. Peguei o jeito. Não, não pode ser. Eu caio. Meu cotovelo está ralado, mas fico de pé num pulo. Não consigo mais correr. Fecho os olhos e respiro fundo. Revejo cada passo que dei, cada curva onde caí. O que eu ganho correndo? Não sei, mas sei que preciso correr. A vida é movimento. Olho pro horizonte. Onde estão os outros? Será que chegaram ao seu destino? Me ponho a correr. O trajeto parece familiar. Estou correndo em círculos? Estou perdido? Pode ser, sempre me senti perdido. Não posso parar. Tem um caído bem a minha frente. Escorregou? Será que alguém o derrubou? Não tenho tempo para perguntar, estou correndo. Correndo pela estrada escura. É silencioso. Escuto apenas meu coração batendo. Acelerado. Porque eu corro. A vida é movimento. Outra curva. Mais inclinada. Não posso cair. Mas eu sei que eu vou. Eu sempre caio. Então não paro. Não desacelero. Eu corro. Eu acelero. Eu fiz a curva. Estou no fim dela. Eu consegui. Eu cansei. Meu pulmão chia, meus pés reclamam. Não tenho fôlego, pra terminar a corrida. Consegui passar a curva, mas de que adianta? A corrida não para, mas eu sim. Caio no chão de exaustão. Não quero correr. Está escuro. Estou sozinho. Onde estão as luzes? Respiro de olhos fechados. Há mais curvas no caminho, eu sei. Com a mão no peito, sinto meu coração batendo. Mais devagar. Mais calmo. A vida é movimento. Mas talvez haja algo mais. Penso em desistir da corrida. Repenso e decido chamar essa pausa de intervalo técnico. Corri bastante, mereço uma pausa. Alguém passa correndo. Mais um. Um grito. Alguém caiu lá atrás. Será que vai desistir? Fico em pé. Devo correr, mas percebo que não é o que eu quero. Mesmo assim eu corro. Devagar agora. Pra não cair. Pra não cansar. Onde estou? Não tenho ideia, mas foi onde meus passos me levaram. Todo aquele ambiente familiar sumiu. Tudo aqui é estranho e escuro. Frio e pesado. Eu corro. Não quero mais correr, mas eu corro. Penso em parar e desacelero. Penso que ficar parado nesse lugar não me fará bem, então eu volto a acelerar. Mantenho o ritmo. Rumo ao fim. Fim? Que fim? O que tem lá no final? Eu já estou chegando? Não, é só mais uma curva. E nessa eu vou cair, com certeza. Caí de novo. Dessa vez doeu muito. Não quero mais correr. Olhando para o céu, questiono qualquer divindade que possa estar me vigiando. Não há resposta. Eu poderia parar por aqui. Já corri bastante. Muitas curvas. Não achei que chegaria tão longe mesmo. Vou ficar aqui no chão. Na mistura de asfalto e lama. Mas espere. O que é aquilo? Uma luz? Alguém me chamando? Não, não importa. A corrida acabou pra mim. Aqui é o meu lugar. No chão. Tudo dói. Meu corpo, minha mente, meu espírito. De quem é a sombra naquela luz? Não importa. Sinto meu coração bater. A vida é movimento. Ele ainda não desistiu. Pobre coitado. Tento sentir a brisa da madruga, o que vem é um vento gélido e cortante feito um mau presságio. Porque estava correndo mesmo? Eu iria pra algum lugar? Ou simplesmente corria? Alguém vem aí. Podia cair aqui também. Ficaríamos na lama indagando o quão estranho é correr numa estrada escura sem saber pra onde se esta indo. Não, ela não caiu. A moça de rabo de cavalo acena pra mim e continua sua corrida. O lugar dela não era aqui. Será esse o meu lugar? Talvez seja. Parece que é. Mas não quero que seja. O que é essa maldita luz? Levanto e vou até lá. Vou com cuidado. Sem pressa. Olhando bem pra onde estou indo. Será uma lanterna? Uma luz divina? Um poste solitário? Tem alguém ali. É uma vela. Tem alguém segurando a vela. Um belo sorriso. Talvez aqui seja meu lugar. Talvez aqui seja o lugar dela e eu estou invadindo. Eu devia correr. Ou não? Me sinto aquecido frente a vela dessa pessoa. Eu vou ficar. Chega de correr. Oh, não. Ela apagou a vela. Esta frio e escuro novamente. Acho que não consigo voltar pra estrada. Estou perdido. Oh, não. E agora? Começo a correr. Corro porque é isso o que eu devo fazer. Não porque eu quero. Então eu corro. A chuva nos meus olhos atrapalha um pouco. Onde estou? Estou no caminho certo? Estou cansado. Eu corro. Corro sem vontade alguma, mas corro. Achei a estrada. Achei o caminho. Não quero estar aqui, mas mesmo assim aqui estou eu e eu corro. É como se eu corresse sem sair do lugar. Não importa o quanto eu corra ou aonde quer que eu vá; nunca chego a lugar algum. Um lugar em que eu possa sentar e contemplar o nascer do sol. Sempre estou correndo no escuro. Então eu vou correr até não conseguir mais ficar em pé. Vou correr até não conseguir mais respirar. Eu vou correr. A vida é movimento. Então eu corro.

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