Devaneios Cotidianos #1

03:25:00


- Então isso é um adeus?
- Creio que sim - Ela diz com a voz falhando.
- Adeus. - Eu digo querendo dizer qualquer outra coisa, menos aquilo.
- Adeus. - E ela se foi.
Pode parecer estranho começar um texto com um fim, mas assim são as coisas. Algo começa quando outro acaba. A vida é feita de ciclos em que as histórias acabam e começam sem cessar, até o derradeiro fim. Então, caro leitor, não se assuste, pois a história aqui narrada começa graças ao término de uma outra história, que nunca será contada. 
Dois meses se passaram desde a minha última conversa com a Ana. Percebi que ela se tornara um fantasma. Onde quer que eu fosse, lá estava ela: num filme bobo, nas notas de uma canção francesa, no cheiro doce da brisa que passa pelos ipês amarelos ou no miado de um pequeno gato que cruzasse meu caminho. Dia após dia eu tentava obliterar minhas memórias de um tempo que pareceu nunca ter existido e eu falhava miseravelmente nisso. Qualquer coisa, das mais simples e banais, me lembrava Ana. Quando um padre exorcista que prega a salvação, afugenta demônios seculares de posse de uma nobre e inocente criança, ele segue rituais de danação, usa de instrumentos específicos e através de sua fé expurga aqueles que não deviam caminhar sobre a terra. Resolvi me inspirar nisso. Precisava combater meus demônios, com força e fúria. Os irmão Winchesters usam sal e ferro para combater fantasmas, além de queimar o cadáver para levar a alma atormentada para outro plano. Optei trocar sal e ferro por bebidas alcoólicas a base de trigo para as noites de solidão e café forte e fervendo para os dias de melancolia. Queimar o corpo de Ana talvez tenha passado pela minha cabeça, mas pensei que tal façanha seria de um extremismo absurdo e optei por apenas apagar algumas fotos.
Cara Ana, se estiver lendo esses delírios de um coração partido, espero que não se ofenda. Há muito eufemismo e exageros poéticos aqui. Se estou, ainda, a falar teu nome, a estranhos que sabe-se lá o porquê adentram nesta postagem, é porque és ainda minha musa. Leve em consideração que ao resolver desfazer o laço que unia nossas vidas, caí em um abismo escuro e desprovido de fim; minhas escadas são te endemonizar.
Caro leitor, não se assuste com tais abstração. São 03h17 de uma sexta-feira (ou seria quinta?) e minhas células estão nadando em alto teor alcoólico.
Tal qual um caçador no auge, parti de peito aberto e resolvi encarar o mundo com unhas e dentes. Estava eufórico e sabia que precisava fazer o mundo me respeitar. Só assim os fantasmas iriam embora. Botei o pé na estrada. Visitei um aquário que prometia peixes africanos e tartarugas acrobáticas, mas tudo o que vi foram manchas negras num rio sem fim. Visitei Minas Gerais pela primeira vez na minha vida, me prometeram cachoeiras e paraísos rochosos, mas só vi um mundo de Buritis e fazendeiros criando porcos. Prometeram-me o mundo e recebi decepções. Todas elas estavam lá, na forma de uma cerveja quente ou de uma mulher de vestido vermelho, apenas decepções. Numa noite sem luar, botei minhas coisas na mala e voltei pra casa. Agora eu consigo ver melhor as entranhas de meu desalento; precisei sair de mim para ver a mim mesmo. Calhou que eu percebi que minhas frustrações estavam muito mais em mim que na Ana. Veja bem, abandonar-me sem motivo, apenas por ostracismo, para dizer que o que era não é mais e acabou-se foi um passo em direção a escuridão, mas talvez isso tenha me afetado muito mais do que deveria, pois os demônios desse término encontraram os demônios que de mim faziam seu lar. Foi quando eu revidei as sacanagens do mundo que eu me entendi.
Você que ainda está aí lendo este trecho de devaneios, quero congratular-te por isso e agradecer, mas sinto que irá se decepcionar. Talvez tenha achado que daqui brotaria uma história, real ou ficcional, com heróis e bandidos, em que no fim, o mocinho fica com a mocinha. Pois bem, como dito no início, essa história aqui começa com o fim daquela última, a que nunca será contada. Mas essa nova história é o que eu vivo no agora. Não tem meio nem fim. Não por enquanto.
Caso sinta-se decepcionado, fica a lição. A vida é feita para decepcionar-te e colocar-te na lona. Cabe a você tirar algum proveito disso. 

Confira outras postagens

0 comentários

Instagram

Spotify

Contato

Nome

E-mail *

Mensagem *