Coisas para escrever #3

17:39:00


195. Conforto

     A brisa que passava pelo meu corpo não me reconfortava de modo algum. Caminhando pela cidade, passando pelos becos onde bêbados balbuciavam besteiras, tinha apenas a lua como testemunha de minha peregrinação. As mãos nos bolsos e o olhar caído evidenciavam meu drama: eu estava perdido. Eu já esquadrinhei aquela pobre cidade de cabo a rabo. Sei todas as ruas e passagens que há ali; não era nesse sentido que eu estava perdido. O perfume que eu sentia estava impregnado em minhas narinas, nunca mais sentiria aquele cheiro em algum lugar, apenas em minhas memórias. Aqueles olhos, aquele cabelo, aquele jeito doce de dizer que me amava, aquele jeito pervertido de me dizer que me queria nu; apenas memória infiltrada em meu tato, minha audição, minha visão. Eu estava perdido, mas sabia bem onde estava indo. Cruzei a avenida principal, cortei caminho por um campinho e cheguei ao porto. Sentei na beirada. Minha visão era minhas pernas balançando a uma boa altura, um grande paredão cinzento e um mar revolto. A brisa que passava pelo meu corpo não me reconfortava de modo algum. As estrelas brilhavam, eu tinha certeza disso. Olhando as águas, me veio a certeza; eu precisava de um abraço. Daquele abraço. Um aperto perfumado e reconfortante. Um sorriso e um afago. A respiração pesada e o desejo. Aquele abraço que agora habitava apenas minha memória. Ensaio um abraço com as mãos, como eu sempre fazia. A mão no cabelo, o cheiro no pescoço. A sensação. O mar lá embaixo, agitado e inconstante, parecia me chamar. As ondas que iam e vinham pareciam querer abraçar-me. Fiquei em pé e abri bem os braços. Fechei os olhos e aceitei o abraço. Caí no abismo. A brisa que passava pelo meu corpo não me reconfortava de modo algum.

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