Devaneios Cotidianos #2

13:00:00


     Eu tenho uma lembrança guardada aqui comigo sem saber muito bem o porquê. Sabe uma daquelas memórias de infância, que você não sabe muito bem como chegou lá, nem qual era a sua idade, ou os rostos são apenas borrões? Então, é uma dessas.
     Eu tava na prainha daqui da minha cidade. É uma praia de beira de rio e estávamos em um quiosque. Não lembro ao certo se era uma reunião familiar ou algo do tipo, mas lembro que tinha cerca de 6 ou 7 crianças lá, além de mim. Minha mãe e meu tio sempre me colocavam para brincar com as outras crianças, porque eu não ia até elas sozinhas. Sempre ficava no meu canto, então eles tentavam me ajudar me introduzindo naquele grupo de pestinhas, mas a verdade é que eu não queria socializar com aquelas crianças que ficavam correndo e pulando pra lá e pra cá. Só queria ler um gibi da turma da mônica e comer um churrasco quieto e sozinho mesmo. E foi o que fiz.
Em determinado momento notei que tinha um gato embaixo de um dos carros. Sim, eu tentei ir lá fazer amizade com ele. Sempre preferi os animais às pessoas. Ele estava bem arisco e parecia não gostar da minha presença. Fui até a minha mãe e pedi ajuda pra ela. Com isso, todas as outras crianças notaram a presença do gato. Eu peguei um pedaço de linguiça e fui até lá. Joguei para o gato, afinal, qual a melhor forma de demonstrar interesse senão oferecendo comida? Infelizmente não adiantou. Fiquei cerca de meia hora rondando o carro tentando fazer ele vir até mim, mas ele se recusou.
     O líder daquele grupo de pivetes (você sabe que sempre tem uma criança que acaba querendo ser a melhor de todas quando está em grupo, pois bem, era essa) veio até mim e disse que como eu não tinha conseguido brincar com o gato, agora era a vez deles. Pelo tom de voz eu sabia que a brincadeira em mente não seria divertida para o gato. Eu disse que tudo bem e voltei para o quiosque. Sentado fiquei observando as crianças. Eles simplesmente pegaram galhos e pedras e saíram gritando. Jogaram as pedras embaixo do carro e o gato saiu em disparada. Eles correram atrás berrando coisas incompreensíveis. Pareciam um bando de babuínos bêbados, eu diria. O gato simplesmente sumiu. Eles voltaram rindo. Qual a graça? Nunca soube.
     Essa é a memória mais antiga que tenho sobre problemas em me socializar, algo recorrente nos dias de hoje. Aquele dia, no alto dos meus 8 ou 9 anos, eu percebi que eu não entendia as pessoas. Como elas pensavam, como elas agiam. Parecia que todos eram iguais, mas me faltava algo. Parecia que eles viam algo que eu não via, que sabiam de informações que me eram inacessíveis. Depois pensei que no momento em que eles se "armaram", eu deveria ter pego um galho qualquer e sair correndo com eles. Experimentaria aquilo que eles eram. Depois de mais velho, analisando melhor a situação, consigo ver que eu era o que eu era e ponto. Não deveria tentar fazer algo que eu não quero apenas para me encaixar em um grupo. Agi corretamente me afastando deles. O gato era inteligente suficiente para não fazer amizade com humanos e rápido o suficiente para fugir de um bando de crianças mongoloides. Sempre que alguém me pergunta se não tenho problemas com essa falta de socialização ou se não me sinto muito só pouco saindo com amigos. Eu sempre lembro desse acontecimento e sempre digo que não. Não estou perdendo nada e a minha própria companhia sempre foi a melhor companhia que tive.

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